Relatório da CPMI aponta que “Júnior do Peixe” atuou como lobista e usou contas como dutos de movimentação de recursos ilícitos

Mesmo rejeitado, documento com pedido de indiciamento será enviado ao STF, PGR, TCU e Polícia Federal; apurações devem avançar em outras instâncias

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A CPMI do INSS encerrou seus trabalhos após sete meses de investigação apresentando um relatório que, apesar de rejeitado pela maioria dos parlamentares, traz acusações contundentes contra o paraibano Jerônimo Arlindo da Silva Júnior — o “Júnior do Peixe”. O documento o aponta como articulador político de um esquema bilionário de fraudes em descontos associativos aplicados ilegalmente a aposentados e pensionistas do INSS.

Elaborado pelo relator, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), o texto descreve a existência de uma estrutura criminosa profissionalizada, supostamente organizada em núcleos político, financeiro, administrativo e empresarial. Segundo a investigação, o grupo teria operado por meio de Acordos de Cooperação Técnica firmados com o INSS para operacionalizar descontos irregulares, movimentando bilhões de reais.

Movimentações financeiras incompatíveis

O relatório, (2-CPMI-INSS-Relatorio-final-compressed-27mar2026) a partir da pagina nº 3.911 sustenta que Júnior do Peixe exerceu papel central no núcleo político, atuando como lobista da Conafer enquanto ocupava cargo de secretário parlamentar no gabinete do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB). Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) revelam que, entre outubro de 2020 e março de 2021, período em que esteve nomeado na Câmara, o investigado movimentou R$ 3,1 milhões em suas contas bancárias — valor absolutamente incompatível com o salário líquido de R$ 3.300 que recebia como Secretário Parlamentar SP-05.

Desse total, conforme o COAF, foram R$ 1.590.678,81 em créditos de terceiros e R$ 1.573.766,84 em transferências a outras contas. O padrão, segundo o relatório, caracteriza o uso das contas como dutos de circulação de ativos ilícitos, com entradas e saídas equivalentes e sem lastro em atividade econômica conhecida.

As quebras de sigilo bancário revelaram ainda que Júnior movimentou R$ 7,8 milhões entre 2015 e 2025 — montante que o relatório considera incompatível com sua trajetória profissional como assessor legislativo e posteriormente como assessor da Prefeitura de João Pessoa.

Patrimônio incompatível com a movimentação milionária

A CPMI também destacou a discrepância entre os valores movimentados e o patrimônio declarado pelo paraibano. Na campanha de 2024, quando disputou a Prefeitura de Marizópolis pelo Republicanos, Júnior informou à Justiça Eleitoral possuir apenas R$ 470 mil em bens. Após deixar a Câmara, sua única renda declarada passou a ser o salário de R$ 4.300 mensais como servidor municipal. Ele não aparece como sócio de empresas ou detentor de atividades econômicas que justifiquem o fluxo financeiro identificado.

Relação com a Conafer e depoimentos contraditórios

O relatório menciona a participação do investigado em eventos da Conafer, entidade no centro do escândalo, onde eram homenageados gestores responsáveis pelos acordos com o INSS. Para o relator, essas aparições reforçam a proximidade entre operadores do esquema e autoridades públicas.

A CPMI afirma que declarações feitas por Júnior em redes sociais — negando qualquer vínculo com a Conafer enquanto era assessor parlamentar — contradizem comprovantes de pagamentos e registros colhidos durante a investigação.

Em depoimentos à comissão, o presidente da Conafer, Carlos Roberto, preso por falso testemunho em setembro de 2025, declarou que Júnior recebia R$ 40 mil mensais como diretor da entidade, além de confirmar o repasse de R$ 900 mil para uma associação ligada a ele. Outro depoente, Cícero Marcelino, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro do esquema, disse ter conhecido o paraibano na própria Conafer.

Pedido de indiciamento e próximos passos

O relatório recomenda o indiciamento de Júnior do Peixe pelos crimes de organização criminosa, corrupção passiva e advocacia administrativa. O documento afirma que ele garantiu sustentação política ao esquema, ajudando-o a resistir a fiscalizações e a manter contratos ativos.

No final dos trabalhos, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) chegou a solicitar a convocação de Júnior para depoimento após revelação da movimentação de R$ 3,1 milhões em seis meses. A oitiva, porém, não ocorreu devido ao encerramento da CPMI, mas seu nome foi mantido entre os indiciados.

Mesmo rejeitado pelo colegiado, o relatório será enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), Procuradoria-Geral da República (PGR), Tribunal de Contas da União (TCU) e Polícia Federal, que avaliarão a abertura de novas investigações e eventuais denúncias.

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