A mais recente denúncia envolvendo o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), traz à tona um retrato desanimador — e infelizmente recorrente — do modo como parte da classe política brasileira encara a gestão da coisa pública: com descuido, privilégios e um preocupante senso de impunidade.
De acordo com reportagem do jornalista Lucas Marchesini, da Folha de S. Paulo, Motta manteve em seu gabinete uma funcionária fantasma que, além de não cumprir expediente, acumulava dois outros cargos públicos. A servidora, que deveria trabalhar 40 horas semanais como assessora parlamentar, cursava faculdade de medicina em período integral e chegou a morar em outro estado. Ainda assim, recebeu regularmente o salário de R$ 2.800 e um auxílio de R$ 1.800, totalizando cerca de R$ 240 mil em pagamentos até outubro de 2025.
Agora, já formada em medicina, a ex-assessora Louise assumiu dois cargos como médica: um em João Pessoa, com salário de R$ 9.400 por mês, e outro em Alhandra, onde trabalha 20 horas semanais desde 18 de setembro. Não há informações sobre o salário recebido neste último cargo.
O problema é que o cargo de secretária parlamentar exige dedicação exclusiva de 40 horas semanais e proíbe o acúmulo de outros empregos públicos. Mesmo assim, não há qualquer controle efetivo de presença, já que o trabalho é realizado nos estados e não há registro por biometria. Essa brecha transforma o que deveria ser uma exceção em prática corriqueira: assessores que recebem sem trabalhar, sustentados pelo dinheiro do contribuinte.
Após o questionamento da Folha, Motta afirmou que Louise não fazia mais parte do gabinete. Curiosamente, o site da Câmara foi atualizado logo após o contato do jornal — indicando que ela trabalhou até o dia 7 de outubro, um dia antes da publicação da reportagem. Até agora, a exoneração ainda não foi oficialmente publicada.
É esse tipo de episódio que alimenta a descrença popular na política e reforça a ideia de que há duas legislações em vigor no Brasil: uma, rígida e implacável, para o cidadão comum; outra, elástica e complacente, para os donos do poder.
A permanência desse tipo de expediente revela o quanto o Congresso precisa urgentemente revisar seus mecanismos de fiscalização interna. Não é aceitável que, em 2025, ainda existam servidores pagos com dinheiro público que sequer aparecem para trabalhar.
No fim, o episódio não se resume a uma funcionária fantasma: trata-se de mais um sintoma de um sistema que continua tolerando desvios como se fossem parte natural da política brasileira. E enquanto essa cultura da impunidade não for rompida, continuaremos a pagar caro — literalmente — pela conivência com o absurdo.