Durante sessão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga desvios em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), realizada nesta segunda-feira (2), o senador Eduardo Girão (Novo-CE) anunciou que irá protocolar, na próxima quinta-feira (5), requerimento para convocar Jerônimo Arlindo Júnior, conhecido como Júnior do Peixe, a prestar depoimento ao colegiado.
A declaração foi feita durante oitiva de Aline Bárbara Mota de Sá Cabral, ex-secretária de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Ao justificar o pedido, Girão exibiu cópia de reportagem do portal Metrópoles, assinada pelas jornalistas Andreza Matais e André Shalders, que aponta que Júnior movimentou R$ 3,1 milhões em apenas seis meses.
Declaração do senador
Ao anunciar o requerimento, Girão afirmou:
“Senhor presidente, nos segundos que me faltam, dizer que nós tivemos aqui a revelação hoje na imprensa do ex-assessor do Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, que movimentou R$ 3 milhões em seis meses. O salário dele é R$ 3 mil. Ele movimentou R$ 3 milhões.
Esse senhor, o Júnior do Peixe, a gente já quebrou o sigilo, por isso que a gente está sabendo, mas, presidente, eu queria pedir para, na próxima sessão, quinta-feira, o senhor colocar, nós estamos dando entrada agora no requerimento, para que possamos trazê-lo para essa cadeira. É importante ouvir esse senhor, porque ele tem muito a explicar sobre os poderosos que podem estar por trás disso tudo.”
Movimentação considerada incompatível

Segundo a publicação, entre outubro de 2020 e março de 2021, período em que exercia o cargo de assessor parlamentar no gabinete do deputado federal Hugo Motta (Republicanos-PB), Júnior do Peixe recebia salário líquido de aproximadamente R$ 3,3 mil mensais, mas teria movimentado R$ 3.164.445,65 no total.
Os dados financeiros indicam que, no período analisado, ele recebeu R$ 1.590.678,81 de terceiros e transferiu R$ 1.573.766,84 a contas de outros titulares. O volume é considerado incompatível com os rendimentos do cargo de Secretário Parlamentar 5 (SP-05), um dos níveis mais baixos da estrutura da Câmara dos Deputados.
As informações sobre a movimentação financeira foram encaminhadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) à CPMI.
Investigação envolve a Conafer
A CPMI apura fraudes relacionadas a descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. Um dos focos da investigação é a atuação da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer).
De acordo com a Polícia Federal, a entidade teria arrecadado quase R$ 800 milhões entre 2022 e 2025 por meio de descontos aplicados em benefícios de aposentados. Cerca de 90% desse montante teria sido direcionado a empresas de fachada.
O nome de Júnior do Peixe já havia sido citado anteriormente na CPMI. Em setembro de 2025, durante depoimento do presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, ele foi mencionado.
Em outubro do mesmo ano, o relator da comissão, deputado federal Alfredo Gaspar (União-AL), questionou o empresário Cícero Marcelino de Souza Santos sobre a suposta relação entre uma cooperativa paraibana e Júnior do Peixe. Cícero afirmou ter conhecido Júnior na Conafer, mas negou vínculos além disso.
Segundo as investigações, Cícero teria aberto empresas para prestar serviços à entidade a pedido da direção da Conafer, no contexto das apurações sobre descontos indevidos em benefícios previdenciários.
Trajetória após a Câmara
Após deixar o gabinete de Hugo Motta, Júnior passou a receber salário de R$ 4,3 mil na Prefeitura de João Pessoa (PB). Posteriormente, assumiu função como assessor da Conafer, com salário de R$ 40 mil mensais.
Nas eleições municipais de 2024, quando disputou a Prefeitura de Marizópolis (PB) pelo Republicanos, declarou R$ 470 mil em bens à Justiça Eleitoral.
Em 9 de agosto de 2025, foi nomeado para o cargo comissionado de Assessor Técnico de Projetos (símbolo CAT-1) na Secretaria de Estado do Desenvolvimento da Agropecuária e da Pesca da Paraíba. Em vídeo divulgado nas redes sociais, afirmou que sua indicação partiu de Hugo Motta e do deputado estadual Jutay Meneses.
Procurado pela imprensa, Júnior do Peixe não havia se manifestado até o fechamento da reportagem. O deputado Hugo Motta também foi procurado, mas não comentou o caso.