De autoria do professor João Bosco Alves de Araújo o livro ressignifica memórias sobre a trajetória de um homem gay, pobre e afeminado que viveu entre as décadas de 1970 e 1990, em Sousa, sertão paraibano

O livro Eu, Luizinha, de autoria de João Bosco Alves de Araújo, resgata a memória de Luiz Pereira da Silva, conhecido como Luizinha, personagem marcante e historicamente marginalizado da cidade de Sousa, no Sertão da Paraíba. A obra lança luz sobre a trajetória de um homem gay, pobre e afeminado que viveu entre as décadas de 1970 e 1990, período marcado por forte conservadorismo social e pela ausência de políticas públicas voltadas à proteção de populações vulneráveis.
Construído a partir de memórias, pesquisa histórica e relatos sensíveis, o livro ultrapassa o formato de uma biografia tradicional e se insere no campo da memória social. A narrativa aborda temas como preconceito, infância LGBTQIA+, religiosidade, pobreza, hipocrisia social e direitos humanos, revelando como a sociedade local se beneficiava do trabalho de Luizinha — que atuou como cozinheiro, artista de circo e trabalhador informal — ao mesmo tempo em que lhe negava reconhecimento, respeito e dignidade.

Professor de História, João Bosco destaca que a obra evita a romantização do sofrimento e apresenta Luizinha em sua complexidade, evidenciando tanto as violências sofridas quanto as estratégias de sobrevivência e resistência construídas ao longo da vida. Ao entrelaçar a história do personagem com sua própria trajetória, o autor amplia o debate sobre exclusão social e o direito à existência fora dos padrões normativos, especialmente no contexto do sertão nordestino.
Segundo o autor, Eu, Luizinha cumpre um papel relevante na preservação da memória LGBTQIA+, ao registrar experiências frequentemente apagadas da história oficial. A publicação busca estimular reflexão, empatia e o debate sobre a necessidade de políticas públicas mais inclusivas, sobretudo para grupos historicamente invisibilizados.
Para a cidade de Sousa, o livro representa um convite à revisão crítica do passado e ao reconhecimento de personagens que, embora marginalizados em vida, integram a identidade social e cultural do município.